Espelhos Tortos

Muita gente precisando urgentemente de novos espelhos.

A minha gente viciou-se em reflexos tortos e ofuscados.

Pessoas, não raramente, por não mudarem,
não aceitam a mudança alheia.

Todo ser muda mais que qualquer espelho.
Nisso não é difícil crer.
Mas então, é só isso.
Muita gente não se reconhece mais,
do ponto em que pararam lá atrás.

Na verdade, nem mesmo o ponto existe mais.
Mas tanto faz.
O espelho torto tem que mudar,
se novamente quiserem sonhar.

Pois acertar as curvas do espelho é possível.
Mas jamais,
podemos no tempo voltar atrás.


                      Rodrigo Jorge Bucker - Niterói 2012

Vaidade pela Humildade

Ando na minha cidade e tenho vaidade.

Mas vejo o equívoco aparecer diante de todo amanhecer.

Mulheres belas, 
de belas pernas,
na vida e na novela,
na cobertura ou na favela,
que enganosamente contemplam mais a bolsa e sua cor,
do que toda beleza natural e seu louvor.

Admiro mulheres bem vestidas e educadas.
Mas jamais as com falsidade arrumada e aplumada.
Seria a evolução da "perua" para a "perua-camaleoa".
Cada hora com uma bolsa diferente e de cor alternada.
Disfarçada.
No fundo,
no fundo: Uma linda carente arrumada.

É assim mesmo que funciona a gente.
Eu mesmo critico, 
mas por outrora admiro a mesma gente.

Carente, que seja.
Ainda bem,
pois se o não?
Quem iria me pedir abrigo e paixão?
Amor e tesão?


Rodrigo Jorge Bucker - Niterói 2012

1 + 1 nunca é igual a 2

Tenho um lápis na mão e outro no bolso.
Logo, logo me vêm o equívoco de crer que tenho dois então.

To maluco!?
não.

Se eu caio no chão,
e depois meu caro amigo também,
então sou eu e ele ao chão.
Veja bem: "EU" e "ELE",
Logo: "EU" nunca é igual a "ELE".
Então, 
então...
alguém pode dizer: "Dois homens ao chão! Help!".
Mas quem tem razão?
Afinal, 
são dois? ou "EU" e "ELE", o meu irmão?

Assim como nunca coexistem dois grãos de areia iguais,
nunca esqueça meu rapaz,
que juntos ou sós, 
"EU" e "ELE",
sempre perto de dois, somos um infinito de mais.

                           
                         Rodrigo Jorge Bucker - Niterói 2012

Aparência X Fatos

Aquele que julga pela aparência,
deveria se ater aos fatos.

Há tanta vadia na nobre,
quanto nobre na vadia.
Basta notar a vida e o passar do dia.

Ninguém pode ver o interior,
mas a estampa na calça sim.
Logo, todo mal entendido se espera,
na vida aqui na terra.

O mal entendido não é ruim, faz parte 
da vida e sua arte.

Apenas o Homem deve logo aprender, 
que nem todo dia é amanhecer.
E que nem toda noite é escurecer.
Muito menos se tratando da alma, ou mente,
de quem vai isso ver.

Existem muitas mulheres frágeis que fazem o mal, 
de forma pior e covarde.
Ao passo que há homens truculentos cheios de bem 
e bom talento.

Por detrás do barbudo pode haver
o bom e raçudo.

Por detrás da ovelha, 
pode haver,
o lobo que te espreita.

Assim é a vida.
Aja paciência para quem julga 
pela aparência.

Por isso aprenda logo,
logo que puder,
entenda, que a aparência,
as aparências,
são somente a ilusão dos fatos e vidências.


                      Rodrigo Jorge Bucker - Niterói 2012

A Partícula que Dói

Num mundo infinito,
talvez quantitativamente,
mas com certeza qualitativamente,
Existe uma partícula que dói.
Uma ínfima partícula que insiste em existir.

Nesse universo infinito e caleidoscópico,
Essa partícula, 
ainda tira cutícula.
A partícula se acha importante e segue adiante.
Ela têm livros na estante.

Algumas partículas bebem para não se perturbarem 
nesse semblante.
Outras usam calmantes.

Nesse semblante não há livro que caiba na estante.
Não há estante que caiba na sala.
Não há sala que caiba na casa.
Assim percebemos que a partícula realmente brilha, 
e é importante.
Pois realmente ela é maior do que todo o universo que habita.
Assim como o livro na estante.

O célebre não cabe em seu cérebro.

Assim a "cura" da dor da partícula,
não pode nunca advir do incidir no cérebro "de existir".

Perdida nesse universo, 
a partícula pode se achar ainda, 
perdida num bar.
Ou se encontrar na poesia que jorra, 
da mulata rebolar.

A partícula poeta pode ouvir música de fúsil
e tiro do piano.
A partícula faz parte de outro plano.
Daí desalento e desengano.
Ou amor 
e sabor.

A poesia trata da alma.
Enquanto a neurologia do cérebro.
O célebre, se constitui de alma (psiquê) 
e cérebro juntamente com outros órgãos (corpo físico).

A partícula senta à mesa, janta e vai dormir...
Agora ela é só "livro"...
A "estante" parece sumir adiante...

A partícula é o ser que sabe que é.
Enquanto o mundo simplesmente é o que é.

Desse conflito nasce a dor.

A dor a mantêm nesse ardor.

Como uma gota d'água,
que têm a tenção superficial para manter a sua existência.

Pensar em abolir a dor, 
é a ilusão da própria dor.

Na verdade abolir a dor é algo meio canibal,
que terminaria mal.

A partícula que se compreende pequena, 
torna-se grande e expande.
Justamente como o livro que não cabe na estante.
A partícula, sou eu, você, 
nesse instante.


                      Rodrigo Jorge Bucker - Niterói 2012

Sociedade Androide

Tudo que mexe assusta aquele que está parado,
congelado ou dopado.

A sociedade Androide continua na sua marcha robótica,
em direção ao abolir da emoção.

Comportamento 
sem argumento.
Comportar rima e deriva 
de aprisionar.

A solução sempre foi a educação.
Mas todos sabemos que onde manda o capital selvagem,
A única saída tem se crido, 
é a prisão e sacanagem.

É fácil convencer 
"descerebrados" a crer,
que esse é o amanhecer.
Ver o sol nascer quadrado,
em casa, diante do monitor da TV.

Abobrinhas vezes abobrinhas,
até você obedecer 
e comprar o que o sistema quer lhe vender.

Money... money... money...

"Faça isso!"
"Se comporte assim!"
"Compre esse carro!"
"Não falte o compromisso!"
"Coloque o despertador!"
"Não se atrase nunca!"
"Cale a boca!"
"Se ficar difícil chamamos o Doutor!
Vai te dar um cala boca pra tomar, 
e você vai ter que engolir,
nem pense em cuspir!"

"Siga dopado com o sorriso pago!
Pago pelo sistema!"

Então no fim a ferrugem corrói a própria máquina.
E o paraíso se torna inferno.
Mas a vaidade, 
lhes fazem, 
morrer artificialmente sorrindo,
e de 
terno fino.

                 Rodrigo Jorge Bucker - Rio de Janeiro 2012

Ver ou Enxergar?

Ver ou Enxergar?

Ele viu aquilo,
mas não enxergou.
Ele viu a pedra,
mas mesmo assim nela tropeçou.

Há cegos que enxergam muito mais que muita gente até de quatro olhos.
Há homens que vencem uma batalha com os braços para trás.

Ver ou enxergar?
O preconceito é totalmente cego.
A pessoa vê,
mas não é capaz de reconhecer
o equívoco que isso lhe trás.

Muita gente prefere tapar os olhos ou o sol com a peneira.
Mas o pior é sempre tapar a alma que quer enxergar.

Assim como existem muitos ricos pobres,
existem muitos videntes cegos.

Precisamos do olho para enxergar.
Mas assim como precisamos da luneta para ver a lua,
não há visão, 
sem um Homem na outra extremidade então.

Então, 
quem enxerga meu caro amigo?
Abra o seu olho e dê um sorriso.
E nunca esqueça, que o “cego”, 
pode ser o seu amigo.

                     
                  
                    Rodrigo Jorge Bucker – Niterói 2012

Mendigos de Terno

Mundo doente.
Mendigos de terno pensam que são gente.

Mundo doente.
Sociedade industrial carente.

Esmolam amor.
Mas geram a própria dor.

O burguês come caviar.
Mas espera ninguém olhar pra arrotar.

Carentes eloquentes que matam muita gente. 

Os mendigos de terno ainda posam de fraternos.
Valorizam seus ternos.
Que copiaram de modelos europeus. 

Esses mendigos, na verdade mais pobres que qualquer um,
não titubeiam em destruir vidas.

Pobres. Vamos rir desses nobres.

A burguesia fede mal.
E pensa poder comprar o seu astral.
Na farmácia e tal.

Mendigo de terno é um bandido visto de perto.

A justiça já está feita.
Enquanto assim,
eles cavam seu próprio fim.

Beleza Enjaulada

Quando um homem coloca um belo pássaro na gaiola,
ele busca congelar, 
petrificar a beleza daquele momento à voar.
Mas isso há de acabar.
Nunca podemos congelar aquilo que sabe voar.

É o mesmo que o matar ou torturar.
Assim como o amor e sua partida que não suportamos olhar,
o pássaro sabe e insiste em voar.

Na ilusão infantil de que podemos perdurar as coisas,
não contemplamos nem mesmo o momento maravilhoso do pássaro em seu voo orgulhoso.

O ego humano lhe confere todo mal humano.
Mas humano, demasiadamente humano.

O pássaro uma vez preso pode imitar essa característica humana,
e deixar de lado suas caçadas rasantes,
em nome de um suposto conforto e comida a gosto.

Mas jamais será pássaro se assim permanecer.
Será um pássaro enlouquecido,
enjaulado e ligando tão pouco.

A sabedoria mostra o poder do momento e a ilusão da eternidade.
Eternidade sempre rimou e rima com vaidade.

Vaidade rima com desumanidade.
Há de se ter a boa vaidade,
Que justamente lhe orgulha da simplicidade.

Há de se andar de cabeça erguida,
mas por saber que você manda em sua vida.
Há de voar pássaro...
Todo pássaro livre volta ao “dono” e seus braços.


                Rodrigo Jorge Bucker – Niterói - 2012

Herói Sem Palmas

Palhaço sem riso
Diamante sem valor
Fui tudo isso e agora entendo com amor

Palhaço sem máscara
Amor sem dor
Fui tudo isso e compreendo o amor

Dinheiro sem nota
Casa sem porta
Gordo sem torta
Fui tudo isso

Dom Quixote sem Cervantes
Sexo sem amantes
Amor com calmantes
Tomei tudo isso e quase me matei de amor

Cachaça sem graça
Nuvem sem fumaça
Cidade pequena sem igreja
Bar sem cerveja
Tomei todas que alguém me pagou
Apenas me magoou
Remédio sem doença se chama amor

Palhaço sem circo
Criança sem brinquedo
Fumante sem isqueiro
Vaidade sem espelho

Fumaça sem cinza
Lucidez com pinga
Fui tudo isso
E descobri o amor

Música sem som
Visão na escuridão
Queda sem chão
Fui tudo isso meu irmão

Herói sem palmas é herói duas vezes.

               Rodrigo Jorge Bucker – Niterói 2012