quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Herói Sem Palmas

Palhaço sem riso
Diamante sem valor
Fui tudo isso e agora entendo com amor

Palhaço sem máscara
Amor sem dor
Fui tudo isso e compreendo o amor

Dinheiro sem nota
Casa sem porta
Gordo sem torta
Fui tudo isso

Dom Quixote sem Cervantes
Sexo sem amantes
Amor com calmantes
Tomei tudo isso e quase me matei de amor

Cachaça sem graça
Nuvem sem fumaça
Cidade pequena sem igreja
Bar sem cerveja
Tomei todas que alguém me pagou
Apenas me magoou
Remédio sem doença se chama amor

Palhaço sem circo
Criança sem brinquedo
Fumante sem isqueiro
Vaidade sem espelho

Fumaça sem cinza
Lucidez com pinga
Fui tudo isso
E descobri o amor

Música sem som
Visão na escuridão
Queda sem chão
Fui tudo isso meu irmão

Herói sem palmas é herói duas vezes.

               Rodrigo Jorge Bucker – Niterói 2012

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

O Gado e o Homem

Avistei aquele rebanho...
Haviam cercas por todos os lados,
e os gados ali, cercados.

Os homens haviam cercado muito bem aqueles gados.
À noite se reuniram em volta de uma grande fogueira,
Como era de costume.
Então no meio da conversa um indagou:
- Quem está cercado aqui?
A pergunta desnorteou todos.
E a resposta imediata do grupo foi:
- Ta maluco!?
O fazendeiro filósofo riu e retrucou:
- Será que eu sou o maluco?
Imperou o silêncio...
E aí ele chorou.
E disse em um tom alto, grosso sério e pontual:
- Passamos nossas vidas vigiando os gados. E eles não estão nem aí. Eles são gados e continuam livres independentemente de nossas cercas e atos. Nós somos os merdas aqui! Nós somos os reais prisioneiros!
Se o gado compreendesse nosso ato ele entenderia como maldade, e jamais seria “o gado” novamente. Seria meio homem! Seria meio mal! Então ele “escolhe” ser livre. Livre de nós! Estamos aqui cercando apenas a nós mesmos.
Imperou o silêncio...
Todos se entreolharam...
E choraram...
Num choro tão másculo e humano como nunca vi.
Realmente homens não choram. Homens derramam poesia por seus olhos.
Então no mesmo silêncio e sem um verbo que desse conta desse momento, todos e ao mesmo tempo abriram a porteira.
Então aquele fazendeiro filósofo disse ainda:
- Não esperem gratidão dos gados também não. Ou incorreriam no mesmo erro. Apenas sejam livres, livres juntos com seus irmãos gados.
Os homens secaram as lágrimas e ainda meio perdidos se mantiveram mudos.
Então um gado mugiu... Parecia agradecer.
Naquela fazenda ficou estabelecido que os gados só poderiam ser abatidos por meio da caça, e que nunca mais de um vaqueiro poderia caçar ao mesmo tempo o mesmo gado.
Naquela noite não foram os gados livres, não foram os gados que ganharam a liberdade. Mas sim, alguns vaqueiros. Vaqueiros que conheceram a filosofia e seu objetivo de sempre: A LIBERDADE.

                          Rodrigo Jorge Bucker - 2012